"Tudo o que a morte me fez perceber era que eu ainda não tinha vivido o suficiente"
Abri os olhos
Estava escuro
Eu estava deitado
Levantei e esfreguei os olhos.
Continuava tudo preto.
Sacudi a cabeça tentando compreender a situação.
Pensei por algum tempo até que...
Eu me lembrei.
Eu tinha morrido.
As imagens começavam a voltar.
Não tinha sido nada muito incomum em questões estatísticas
Havia saído com a minha família para jantarmos e irmos ao cinema. Quando estavamos voltando para casa entramos em uma rua escura que estava praticamente deserta acidentalmente.
Apressamos nosso passo mas mesmo assim, por acaso do destino, um homem armado nos abordou pedindo os pertences.
Não satisfeito com o dinheiro e os celulares, ele, por alguma razão aleatória, atirou.
Me lembrei que senti uma dor escruciante e depois mais nada, as memórias acabavam ali.
Tudo continuava preto mas enquanto virava, vi uma luz
Como não havia mais nenhum lugar para ir em meio aquela escuridão, andei em direção à luz.
Quando cheguei à luz vi ela aumentar e ficar mais forte o que me fez, reativamente, cobrir os olhos ofuscados.
Quando os abri denovo estava dentro de um grande edifício com vários bancos com pessoas, com semblantes triste ou sério, vestidas de preto. Havia grandes vitrais coloridos e uma espécie de palco na parte do fundo do interior do edifício.
Algumas pessoas conversavam, tentando se mostrar emocionadas enquanto outras tentavam se segurar para não desatar em choro.
Na frente havia uma grande caixa suspensa por um suporte de metal.
No primeiro banco havia uma mulher sentada chorando que era consolada por um homem ao seu lado
Curioso, cheguei mais perto e logo a reconheci.
Era mimha mãe
Ela chorava amargamente e o homem era meu pai
Percebi a situação ao vê-los então, olhei para a grande caixa e me aproximei . Ali estava. A prova de que eu não mais vivia e que aquele era algum tipo de estado póstumo.
Me surpreendi.
Mas não com minha morte, mas sim com o fato de parecer ter me conformado tão rápido com minha própria morte.
- Então eu morri mesmo não é?
Mesmo querendo me sentir indignado, consternado, irritado, fosse o que fosse não conseguia, por razão desconhecida, sentir qualquer coisa acerca daquela situação.
Ninguém parecia perceber que eu estava lá então a pergunta que fizera ficou sem resposta.
Procurei um lugar livre e me sentei para ver a cerimônia.
Fiquei lá ainda por um tempo até que começou o funeral.
Quanto mais o pastor avançava em sua pregação, mais minha mãe chorava até que chegou um ponto onde algumas irmãs a levaram para fora para beber uma água e lavar o rosto, afim de que ela se acalmasse.
Vendo minha mãe sendo escoltada enquanto gritava pedindo pelo filho morto, pelo corredor, eu só me perguntava o por quê de tanta tristeza
Minha mãe era uma mulher extremamente fiel e me levava à igreja desde pequeno
Acreditava tanto no céu quanto no inferno
E, para me livrar do pior destino, me levava na igreja todas as semanas
Por acaso ela achava que seus esforços para me levar ao caminho de Deus não haviam sido o bastante?
Não. Ela não teria motivos para acreditar nisso.
Ou será que ela sabia que eu estava em um lugar muito melhor do que este mundo, onde eu sofreria mil males antes do fim e que ela, mesmo assim, chorava por seu egoísmo de querer ter seu filho ali com ela mesmo sabendo que ele estava em um lugar melhor?
Realmente as emoções são uma coisa poderosa, pensei comigo.
Fiquei ali até o culto acabar mas não os acompanhei ao cemitério. Não queria ver meu corpo sendo jogado no esquecimento da fria terra, se decompondo durante anos até que todos os vestígios de minha existência fossem apagados, além disso minha mãe provavelmente choraria mais ainda e não estava afim de ver essa cena tão triste então saí dali.
Andei um pouco pela rua e conforme chegava mais perto de minha vizinhança comecei a ver alguns conhecidos de rosto
Eventualmente cheguei em minha casa. Entrei, pegando a chave escondida e fui para o meu quarto.
Tudo estava como eu havia deixado
Me deitei na cama e comecei a encarar o imóvel teto, pensando.
- Então é assim que é a morte? Eu sinceramente esperava mais
Falei sozinho.
Fiquei ali pensando em o que fazer por cerca de uma hora. O que fazer quando já se está morto?
Decidi que não havia motivo para ficar ali sem fazer nada
Iria para um lugar legal.
Sai de casa sem saber exatamente para onde ir.
Decidi ir pra algum lugar que não consegui ir quando estava vivo
Peguei um ônibus (obviamente não tive que pagar passagem) e depois fui de metrô para o centro
Desci e comecei a andar pelas agitadas ruas do centro.
...
Fiquei surpreso e achei interessante minha própria situação quando cheguei as, sempre cheias, ruas do centro da cidade pois não precisava ficar desviando das pessoas, elas simplesmente desviavam de mim sem nem ao menos notarem. Era como se fosse um divisor de águas invisível. Achei isso muito interessante
Quando entrei na principal e mais cheia(tanto de carros como de pessoas) rua da cidade a primeira coisa que eu notei foi um morador de rua.
Sentado num canto, ele estendida a mão olhando para quem passava, porém as pessoas simplesmente desviavam dele sem nem mesmo olhar e continuavam seus respectivos caminhos. Algumas pessoas o olhavam mas logo desviavam seu olhar a frente e seguiam, como se nunca tivessem visto nada. Senti certa empatia por ele. Ele era como eu. Uma pedra invisível, dividindo o rio de pessoas. Porém, diferente de mim, ele não era invisível por uma condição de morte, ele era invisível por que as pessoas que continuavam seus caminhos, impassíveis à sua existência, o tornavam invisível.
- Então é assim que é ser invisível não é? Nunca pensei que seria possível uma pessoa ser invisível mesmo podendo ser vista.
E passando a ignorá-lo como todos à minha volta eu segui meu caminho.
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