terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Capítulo 2: Os Lazeres, O Quarto e O reflexo

*Atenção: apesar do que possa parecer com o decorrer da leitura, em nenhum momento deste capítulo serão descritas qualquer cenas de sexo ou impróprias para menores de 18. Boa leitura!:)


Continuei minha caminhada pela Avenida Principal. Em certa altura entrei numa rua lateral bem famosa na cidade e avistando um lugar cheio de luzes, decidi o que faria.

Eu entraria numa casa noturna.

Não havia problema não é? Afinal, acho que eles não iriam conferir a idade de uma alma penada.

Passei a fila e os seguranças e entrei no lugar.

O som era tão alto como eu ouvira falar. As luzes alternavam e lazeres saiam dos cantos das paredes e de alguns lugares no chão e iam para o teto. As pessoas se dividiam em dançar, beber, fumar, conversar ou alguma outra coisa.

Tentei ir dançar para ver como era. Fiquei lá um tempo mas, logo me entediei e fui sentar em fos bancos do bar. Não havia graça em dançar sozinho, principalmente quando ninguém pode te ver ou ouvir. Isso me desnimou.
Não estava mais com animo para experimentar alguma bebida alcoólica (pelo que diziam, a dor do dia seguinte seria bem pior que o desânimo que sentia naquele momento) e também, mesmo que tentasse, não conseguia conversar com ninguém, então não tinha nada para eu fazer ali, o que me fez pensar.
O que será que essas pessoas estão fazendo aqui? Se divertindo, é claro mas o que essas pessoas farão amanhã? Ficarão a manhã inteira na cama com dor de cabeça e de noite vão ir para outro lugar beber ou ficar em casa vendo TV? E depois de amanhã? E na segunda feira? Será que alguma coisa que qualquer um aqui faça será percebido? Alguma dessas pessoas será importante? Farão algo que faça alguma diferença? Algo que possa ser notado? Algo que possa ser lembrado? Ou suas vidas passarão tão despercibidas pelo mundo quanto a minha? Endaguei-me profundamente e...

  -Bom, tanto faz - disse em fim

Concluindo que a significância da vida alheia nao me dizia respeito saí daquele lugar um pouco decepcionado com a experiência.


...




Comecei a andar aleatoriamente pelas ruas da cidade. Nunca havia andado por ali e tinha quase certeza que estava perdido no meio de ruas desertas e escuras.

  - Tanto faz, não é como se eu fosse ser assaltado ou morto novamente-disse tentando confortar a mim mesmo.

Enquanto andava pelas ruas do centro, entrei em uma rua e avistei uma moça. Suas roupas eram curtas, ela usava uma bolsa vermelha, cabelo loiro apesar de não parecer natural. Ela andava sozinha até que avistou um homem e foi falar com ele. Ficaram falando por um ou dois minutos e então os dois começaram a andar juntos. Os segui até que eles entraram em uma rua e foram na direção de um...

Bom, aparentemente, acabara de decobrir a profissão da moça.

Eles estavam se dirigindo à um motel.

Começei a seguir meu caminho mas derrepente não parava de pensar naquilo que aqueles dois completos estranhos estavam prestes a fazer. Por mais que eu tentasse não pensar, aquilo era tudo que me passava pela cabeça.

Não me julguem.

Embora morto ainda era um adolescente na flor da idade e , apesar de meu interesse não ser como o dos outros à minha volta, o assunto ainda passava frequentemente pela minha mente.

Sem pensar mais sobre o assunto, os segui me apressando para não perdê-los de vista e entrei com eles no motel.

Tendo visto a oportunidade perfeita para testar algo que já me incomodava a certo tempo corri à frente deles e, na frente de um dos quartos tentei atravessar a parede como um verdadeiro fantasma.
O resultado?
Dei com a cara na parede fazendo um barulho que parecia apenas audível para mim.
Com o nariz dolorido por causa da minha patética tentativa de quebrar as leis da física, me esgueirei atrás da mulher e consegui entrar no quarto e fui logo me isolar num canto em espera do "acontecimento" e ali fiquei até que as coisas começassem.
A nudez (tanto masculina como feminina) não me interessava. Decerto olhar uma dentre aquelas várias imagens de mulheres sensuais que se vê em todo lugar chamava a minha atenção mas logo após eu lembrava o quão vazias eram tanto essas imagens quanto as mulheres exibidas nestas e logo perdia o interesse. Um objeto que só servia para excitar os marmanjos e vender uma bugiganga qualquer sem nenhuma profundide intelectual certamente não me interessava, preferia ter uma boa conversa com uma garota inteligente.

Mas por que estava ali naquele quarto então?

Foi isso que me perguntei.

Eu simplesmente não sabia.

Eu só sentia que aquilo era algo que tinha que, ao menos presenciar, pelo menos uma vez.
Eu nunca antes havia entrado num daqueles famosos sites que disponibilizavam este conteúdo nem nunca assistido nada que contesse esse tipo de coisa. Simplesmente me parecia algo fútil, sem sentido.

Mas mesmo assim ali estava eu.

Fiquei absorto nesses pensamentos até que percebi que subiam na cama, já desnudos, me virei e tive uma visão que jovens da minha idade já haviam presenciado várias vezes em suas telas de computadores. Eu, pela primeira vez, presenciava um autêntico ato sexual.

No começo fiquei atônito esperando para que a visão daqueles dois completos estranhos desfrutando dos prazeres da carne me causasse o prazer esperado. Estava animado, excitado esperando pela primeira pontada de prazer que invadiria o meu corpo quando derrepente...


Nada.

Não sentia nada.

Percebi que não sentia nada.

Por mais que olhasse e reolhasse aqueles dois nenhuma sensação me vinha.

Tudo que sentia era a sensação de estar invadindo a privacidade alheia o que eu, de fato, estava fazendo.
Saí do quarto deixando os dois a sós.
Estava decepcionado.
Não com a experiência que acabara de ter em si.
Estava decepcionado comigo mesmo.
Por que eu não fora capaz de sentir nada, mesmo numa situação como aquela?
Por que nem mesmo vivo eu conseguira me interessar suficientemente por coisas envolvendo a sexualidade?
Nunca me apaixonara por ninguém.
Nunca sentira vontades que conseguissem tomar controle das minhas ações.
Nunca tivera emoção forte o suficiente para me fazer esquecer todo o resto.

Passando na frente de uma vitrine e olhando para o meu reflexo, me perguntei em voz alta:
  - Eu sou mesmo tão insensível assim?
 Minha pergunta ecoou pela rua deserta e minha única resposta foi o silêncio.

O silêncio que pertencia a noite.


E o silêncio que existia dentro de mim.


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