terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Capítulo 3: A Árvore, As Folhas e O Nada

Minha caminhada pelo centro da cidade continuou noite adentro.

Perdido em reflexões eu, cabisbaixo, andava pelas deserticas ruas, iluminadas por luzes amerelas, que davam à mim uma sensação de solidão, de quietude, de tristeza.
Andava eu ainda quando avistei uma grande praça pública com um pátio enorme, várias árvores de toda espécie e proporcionais bancos onde, eventualmente, se encontravam moradores de rua a dormir, conversar, entre outras coisas.
Quando cheguei ao meio do gigantesco pátio percebi um banco desocupado debaixo de uma árvore, a qual tinha toda a sua beleza transformada em uma imagem melancólica pela luz sépia que vinha dos postes de luz e banhava a noite.
Me aproximei e me juntei à paisagem taciturna me sentando no banco coberto pela sombra da árvore de beleza abatida.
Depois de alguns minutos descobri-me extremamente cansado então me deitei a contemplar as verde-amarelado folhas da árvore.
  - Quem diria que nos cansamos na pós-vida - comentei comigo mesmo enquanto cerravam-se, cada vez mais, os meus olhos
 Gradualmente minha consciência foi desvancendo enquanto permanecia a minha visão das folhas até que adormeci tendo como testemunhas apenas a folhagem sobre mim e o banco à baixo de minhas costas.





...

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Luz.

Luz do Sol.

Gente.

Gente falando.

Passos.

Passos apressados.

Folhas.

Uma árvore.

Um banco.


Uma grande praça.

Uma grande praça com muita gente passando por ela.

Essa foi a primeira visão que tive quando acordei.
Multidões de pessoas que vinham de todos os lados e iam para todos os lados passavam pelo colossal centro da praça fazendo barulho com seus sapatos no chão de paralelepípedos.
Um dia normal.
No cansaço e desânimo com que estava na madrugada anterior eu não fora capaz de reconhecer porém naquele momento, descansado e agraciado pela luz diurna, reconheci a praça.
Tratava-se de uma famosa praça em minha cidade, pela qual milhares, até milhões, de pessoas tinham de passar todos os dias para chegarem aos seus serviços.
A praça também era palco de vários eventos devido à seu grande pátio, além de abrigar uma das igrejas mais antigas da cidade.
Sentei-me no banco e logo espreguicei-me e estralei as costas(dormir em um banco não tinha se mostrado uma coisa muito confortável).
Olhei em volta analisando as pessoas que se encontravam na praça.
O lugar abrigava todo o tipo de gente.
Comerciantes com suas lojas às margens da praça.
Engravatados se dirigindo à seus trabalhos.
Compradores com suas sacolas.
Turistas com seus óculos e câmeras.
Além de uma quantidade considerável de mendicantes.
Procrastinava eu para levantar-me do banco quando vi um morador de rua que se sentava no banco ao meu lado.
Percebia-se que ele era jovem mas tinha uma aparência doente, cansada, magra, de forma que poderia-se facilmente confundí-lo com um cadáver ou um velho à beira da morte por ser quase totalmente esquelético e sujo.
Ele olhava para as pessoas com um olhar distante, como se nem estivesse naquele mundo. Seus olhos castanhos vazios miravam o completo nada enquanto este permanecia completamente imóvel, exceto por sua lenta e eventual respiração.
Aquela figura me intrigava. O que poderia fazer um jovem daqueles ter aquela aparência? O que poderia faze-lo ter um olhar tão vazio? Pelo que aquele morador de rua tinha passado para acabar daquela forma?
Assim eu me indagava, mas, no meio de minhas indagações, me surpreendi quando vi o curioso homem se levantar e começar a andar sem razão aparente.
Fiquei olhando-o por um tempo me perguntando o que teria-o feito levantar-se e finalmente decidi seguí-lo a fim de descobrir as respostas para as questões que me importunavam.

Então o segui o homem que olhava para o nada pela cidade a dentro, pelo nada a dentro.

Capítulo 2: Os Lazeres, O Quarto e O reflexo

*Atenção: apesar do que possa parecer com o decorrer da leitura, em nenhum momento deste capítulo serão descritas qualquer cenas de sexo ou impróprias para menores de 18. Boa leitura!:)


Continuei minha caminhada pela Avenida Principal. Em certa altura entrei numa rua lateral bem famosa na cidade e avistando um lugar cheio de luzes, decidi o que faria.

Eu entraria numa casa noturna.

Não havia problema não é? Afinal, acho que eles não iriam conferir a idade de uma alma penada.

Passei a fila e os seguranças e entrei no lugar.

O som era tão alto como eu ouvira falar. As luzes alternavam e lazeres saiam dos cantos das paredes e de alguns lugares no chão e iam para o teto. As pessoas se dividiam em dançar, beber, fumar, conversar ou alguma outra coisa.

Tentei ir dançar para ver como era. Fiquei lá um tempo mas, logo me entediei e fui sentar em fos bancos do bar. Não havia graça em dançar sozinho, principalmente quando ninguém pode te ver ou ouvir. Isso me desnimou.
Não estava mais com animo para experimentar alguma bebida alcoólica (pelo que diziam, a dor do dia seguinte seria bem pior que o desânimo que sentia naquele momento) e também, mesmo que tentasse, não conseguia conversar com ninguém, então não tinha nada para eu fazer ali, o que me fez pensar.
O que será que essas pessoas estão fazendo aqui? Se divertindo, é claro mas o que essas pessoas farão amanhã? Ficarão a manhã inteira na cama com dor de cabeça e de noite vão ir para outro lugar beber ou ficar em casa vendo TV? E depois de amanhã? E na segunda feira? Será que alguma coisa que qualquer um aqui faça será percebido? Alguma dessas pessoas será importante? Farão algo que faça alguma diferença? Algo que possa ser notado? Algo que possa ser lembrado? Ou suas vidas passarão tão despercibidas pelo mundo quanto a minha? Endaguei-me profundamente e...

  -Bom, tanto faz - disse em fim

Concluindo que a significância da vida alheia nao me dizia respeito saí daquele lugar um pouco decepcionado com a experiência.


...




Comecei a andar aleatoriamente pelas ruas da cidade. Nunca havia andado por ali e tinha quase certeza que estava perdido no meio de ruas desertas e escuras.

  - Tanto faz, não é como se eu fosse ser assaltado ou morto novamente-disse tentando confortar a mim mesmo.

Enquanto andava pelas ruas do centro, entrei em uma rua e avistei uma moça. Suas roupas eram curtas, ela usava uma bolsa vermelha, cabelo loiro apesar de não parecer natural. Ela andava sozinha até que avistou um homem e foi falar com ele. Ficaram falando por um ou dois minutos e então os dois começaram a andar juntos. Os segui até que eles entraram em uma rua e foram na direção de um...

Bom, aparentemente, acabara de decobrir a profissão da moça.

Eles estavam se dirigindo à um motel.

Começei a seguir meu caminho mas derrepente não parava de pensar naquilo que aqueles dois completos estranhos estavam prestes a fazer. Por mais que eu tentasse não pensar, aquilo era tudo que me passava pela cabeça.

Não me julguem.

Embora morto ainda era um adolescente na flor da idade e , apesar de meu interesse não ser como o dos outros à minha volta, o assunto ainda passava frequentemente pela minha mente.

Sem pensar mais sobre o assunto, os segui me apressando para não perdê-los de vista e entrei com eles no motel.

Tendo visto a oportunidade perfeita para testar algo que já me incomodava a certo tempo corri à frente deles e, na frente de um dos quartos tentei atravessar a parede como um verdadeiro fantasma.
O resultado?
Dei com a cara na parede fazendo um barulho que parecia apenas audível para mim.
Com o nariz dolorido por causa da minha patética tentativa de quebrar as leis da física, me esgueirei atrás da mulher e consegui entrar no quarto e fui logo me isolar num canto em espera do "acontecimento" e ali fiquei até que as coisas começassem.
A nudez (tanto masculina como feminina) não me interessava. Decerto olhar uma dentre aquelas várias imagens de mulheres sensuais que se vê em todo lugar chamava a minha atenção mas logo após eu lembrava o quão vazias eram tanto essas imagens quanto as mulheres exibidas nestas e logo perdia o interesse. Um objeto que só servia para excitar os marmanjos e vender uma bugiganga qualquer sem nenhuma profundide intelectual certamente não me interessava, preferia ter uma boa conversa com uma garota inteligente.

Mas por que estava ali naquele quarto então?

Foi isso que me perguntei.

Eu simplesmente não sabia.

Eu só sentia que aquilo era algo que tinha que, ao menos presenciar, pelo menos uma vez.
Eu nunca antes havia entrado num daqueles famosos sites que disponibilizavam este conteúdo nem nunca assistido nada que contesse esse tipo de coisa. Simplesmente me parecia algo fútil, sem sentido.

Mas mesmo assim ali estava eu.

Fiquei absorto nesses pensamentos até que percebi que subiam na cama, já desnudos, me virei e tive uma visão que jovens da minha idade já haviam presenciado várias vezes em suas telas de computadores. Eu, pela primeira vez, presenciava um autêntico ato sexual.

No começo fiquei atônito esperando para que a visão daqueles dois completos estranhos desfrutando dos prazeres da carne me causasse o prazer esperado. Estava animado, excitado esperando pela primeira pontada de prazer que invadiria o meu corpo quando derrepente...


Nada.

Não sentia nada.

Percebi que não sentia nada.

Por mais que olhasse e reolhasse aqueles dois nenhuma sensação me vinha.

Tudo que sentia era a sensação de estar invadindo a privacidade alheia o que eu, de fato, estava fazendo.
Saí do quarto deixando os dois a sós.
Estava decepcionado.
Não com a experiência que acabara de ter em si.
Estava decepcionado comigo mesmo.
Por que eu não fora capaz de sentir nada, mesmo numa situação como aquela?
Por que nem mesmo vivo eu conseguira me interessar suficientemente por coisas envolvendo a sexualidade?
Nunca me apaixonara por ninguém.
Nunca sentira vontades que conseguissem tomar controle das minhas ações.
Nunca tivera emoção forte o suficiente para me fazer esquecer todo o resto.

Passando na frente de uma vitrine e olhando para o meu reflexo, me perguntei em voz alta:
  - Eu sou mesmo tão insensível assim?
 Minha pergunta ecoou pela rua deserta e minha única resposta foi o silêncio.

O silêncio que pertencia a noite.


E o silêncio que existia dentro de mim.


Capítulo1: Morte, Luto e Empatia

"Tudo o que a morte me fez perceber era que eu ainda não tinha vivido o suficiente"















Abri os olhos

Estava escuro

Eu estava deitado

Levantei e esfreguei os olhos.

Continuava tudo preto.

Sacudi a cabeça tentando compreender a situação.
Pensei por algum tempo até que...

Eu me lembrei.

Eu tinha morrido.

As imagens começavam a voltar.

Não tinha sido nada muito incomum em questões estatísticas

Havia saído com a minha família para jantarmos e irmos ao cinema. Quando estavamos voltando para casa entramos em uma rua escura que estava praticamente deserta acidentalmente.

Apressamos nosso passo mas mesmo assim, por acaso do destino, um homem armado nos abordou pedindo os pertences.
Não satisfeito com o dinheiro e os celulares, ele, por alguma razão aleatória, atirou.

Me lembrei que senti uma dor escruciante e depois mais nada, as memórias acabavam ali.
Tudo continuava preto mas enquanto virava, vi uma luz
Como não havia mais nenhum lugar para ir em meio aquela escuridão, andei em direção à luz.
Quando cheguei à luz vi ela aumentar e ficar mais forte o que me fez, reativamente, cobrir os olhos ofuscados.
Quando os abri denovo estava dentro de um grande edifício com vários bancos com pessoas, com semblantes triste ou sério, vestidas de preto. Havia grandes vitrais coloridos e uma espécie de palco na parte do fundo do interior do edifício.
Algumas pessoas conversavam, tentando se mostrar emocionadas enquanto outras tentavam se segurar para não desatar em choro.
Na frente havia uma grande caixa suspensa por um suporte de metal.
No primeiro banco havia uma mulher sentada chorando que era consolada por um homem ao seu lado
Curioso, cheguei mais perto e logo a reconheci.
Era mimha mãe
Ela chorava amargamente e o homem era meu pai
Percebi a situação ao vê-los então, olhei para a grande caixa e me aproximei . Ali estava. A prova de que eu não mais vivia e que aquele era algum tipo de estado póstumo.
Me surpreendi.
Mas não com minha morte, mas sim com o fato de parecer ter me conformado tão rápido com minha própria morte.
  - Então eu morri mesmo não é?
 Mesmo querendo me sentir indignado, consternado, irritado, fosse o que fosse não conseguia, por razão desconhecida, sentir qualquer coisa acerca daquela situação.

Ninguém parecia perceber que eu estava lá então a pergunta que fizera ficou sem resposta.
Procurei um lugar livre e me sentei para ver a cerimônia.
Fiquei lá ainda por um tempo até que começou o funeral.

Quanto mais o pastor avançava em sua pregação, mais minha mãe chorava até que chegou um ponto onde algumas irmãs a levaram para fora para beber uma água e lavar o rosto, afim de que ela se acalmasse.
Vendo minha mãe sendo escoltada enquanto gritava pedindo pelo filho morto, pelo corredor, eu só me perguntava o por quê de tanta tristeza
Minha mãe era uma mulher extremamente fiel e me levava à igreja desde pequeno
Acreditava tanto no céu quanto no inferno
E, para me livrar do pior destino, me levava na igreja todas as semanas
Por acaso ela achava que seus esforços para me levar ao caminho de Deus não haviam sido o bastante?
Não. Ela não teria motivos para acreditar nisso.
Ou será que ela sabia que eu estava em um lugar muito melhor do que este mundo, onde eu sofreria mil males antes do fim e que ela, mesmo assim, chorava por seu egoísmo de querer ter seu filho ali com ela mesmo sabendo que ele estava em um lugar melhor?
Realmente as emoções são uma coisa poderosa, pensei comigo.

Fiquei ali até o culto acabar mas não os acompanhei ao cemitério. Não queria ver meu corpo sendo jogado no esquecimento da fria terra, se decompondo durante anos até que todos os vestígios de minha existência fossem apagados, além disso minha mãe provavelmente choraria mais ainda e não estava afim de ver essa cena tão triste então saí dali.
Andei um pouco pela rua e conforme chegava mais perto de minha vizinhança comecei a ver alguns conhecidos de rosto
Eventualmente cheguei em minha casa. Entrei, pegando a chave escondida e fui para o meu quarto.
Tudo estava como eu havia deixado
Me deitei na cama e comecei a encarar o imóvel teto, pensando.
  - Então é assim que é a morte? Eu sinceramente esperava mais
Falei sozinho.

Fiquei ali pensando em o que fazer por cerca de uma hora. O que fazer quando já se está morto?
Decidi que não havia motivo para ficar ali sem fazer nada
Iria para um lugar legal.
Sai de casa sem saber exatamente para onde ir.
Decidi ir pra algum lugar que não consegui ir quando estava vivo
Peguei um ônibus (obviamente não tive que pagar passagem) e depois fui de metrô para o centro
Desci e comecei a andar pelas agitadas ruas do centro.

...


Fiquei surpreso e achei interessante minha própria situação quando cheguei as, sempre cheias, ruas do centro da cidade pois não precisava ficar desviando das pessoas, elas simplesmente desviavam de mim sem nem ao menos notarem. Era como se fosse um divisor de águas invisível. Achei isso muito interessante
Quando entrei na principal e mais cheia(tanto de carros como de pessoas) rua da cidade a primeira coisa que eu notei foi um morador de rua.
Sentado num canto, ele estendida a mão olhando para quem passava, porém as pessoas simplesmente desviavam dele sem nem mesmo olhar e continuavam seus respectivos caminhos. Algumas pessoas o olhavam mas logo desviavam seu olhar a frente e seguiam, como se nunca tivessem visto nada. Senti certa empatia por ele. Ele era como eu. Uma pedra invisível, dividindo o rio de pessoas. Porém, diferente de mim, ele não era invisível por uma condição de morte, ele era invisível por que as pessoas que continuavam seus caminhos, impassíveis à sua existência, o tornavam invisível.
  - Então é assim que é ser invisível não é? Nunca pensei que seria possível uma pessoa ser invisível mesmo podendo ser vista.
 E passando a ignorá-lo como todos à minha volta eu segui meu caminho.